Entrevistas

ENTREVISTAS FUNDO CATARINA #4: GILBERTO HEINZELMANN

Por Fundo Catarina - 16.07.2026

Gilberto Heinzelmann relembra sua trajetória da Engenharia Mecânica na UFSC à liderança global na Embraco e à fundação da TNS/Revela, compartilhando lições sobre autonomia, disciplina e a construção intencional da própria carreira.

“Você cresce fora da sua zona de conforto.”

Gilberto Heinzelmann construiu uma carreira impressionante, mas nada foi por acaso. Seu caminho profissional é um retrato de alguém que sempre se antecipou às oportunidades, nunca se limitou à sua zona de conforto e fez da autonomia uma filosofia de vida.

Ainda jovem, quando decidiu cursar Engenharia Mecânica na UFSC, a escolha já revelava esse impulso prático: “A questão da UFSC compareceu por questões de orçamento dentro da família também. Então, o fato de ser uma universidade pública e, junto com isso, uma universidade com excelente reputação, direcionou todo o meu esforço para isso.”

Não demorou para que Gilberto buscasse experiências que extrapolassem o currículo. Antes mesmo das disciplinas profissionalizantes, mergulhou no ambiente dos laboratórios da universidade, aproveitando cada oportunidade de aproximação com a prática.

“Muito antes de eu chegar nas disciplinas profissionalizantes, eu já estava passando meus verões e as férias no laboratório.”

Um passo à frente, sempre

Sua entrada na Embraco, uma das maiores empresas de compressores do mundo, marcou o início de uma trajetória de 24 anos. E novamente, Gilberto não esperou que a empresa lhe oferecesse as oportunidades, ele construiu as condições para isso. “Tinha fascinação pelos Estados Unidos e queria muito ter uma oportunidade de carreira lá. Comecei pelo básico, aprendendo inglês.”

Estudava com disciplina, intensamente, todos os dias, até aos sábados de manhã. Essa proatividade no idioma, em um tempo em que o inglês ainda era diferencial, o levou a ocupar funções de marketing, depois vendas, e por fim, à presidência da operação nos Estados Unidos.

“Eu aprendi sobre vendas sentado sozinho numa cadeira de vice-presidente nos Estados Unidos, cuidando dos Estados Unidos, México e Canadá.”

Dois anos depois, Gilberto foi convidado a assumir uma posição global de vendas, alocado no Brasil. Nessa cadeira, expandiu suas responsabilidades, viajou por diversos continentes e foi convidado a liderar a área de novos negócios da companhia — um movimento que unia visão estratégica, técnica e comercial.

O empreendedor inquieto

Em 2010, enquanto ainda era executivo, decidiu fundar sua própria empresa. Viajou à Alemanha por conta própria para estudar o mercado e validar o modelo de negócio. “Coloquei minhas férias a jogo, fui para a Alemanha, participei de feiras sobre nanotecnologia e comecei a estudar sobre isso.”

Surgia a TNS, uma empresa de nanotecnologia que, mais tarde, geraria a Revela, spin-off voltada ao agronegócio. Gilberto organizou a estrutura societária, trouxe sócios estratégicos e continuou atuando ativamente na governança — mesmo conciliando com sua função de CEO em uma autopeças, onde liderou por 11 anos.

A carreira é sua responsabilidade

Gilberto acredita que ninguém deve delegar o controle da própria trajetória. “O dono da sua carreira é você mesmo. Então você tem que procurar as oportunidades. Você tem que ver os gaps que você tem e trabalhar neles.”

Para ele, formação técnica sólida é base — mas insuficiente. É preciso buscar o que a faculdade não ensina: idiomas, oratória, liderança, visão de negócios. “Algumas coisas você precisa correr atrás. Não dá para esperar tudo da universidade.”

O mesmo vale para o uso de tecnologia. Ao perceber o potencial da inteligência artificial, Gilberto passou a utilizá-la intensamente no trabalho de conselheiro, com buscas profundas, análises de concorrência e automações de relatórios.

Tempo e legado

Gilberto também defende que a profundidade exige permanência. “Leva meio ano para entender a empresa. Depois é preciso conseguir ter o aprendizado e deixar um legado.”

Para ele, as grandes carreiras se constroem com blocos: primeiro, impacto em processos. Depois, em pessoas. Por fim, na organização como um todo. “Você deve se preocupar em deixar sua marca nas organizações em que você passa.”

De corporação a startup: o que levar e o que não repetir

Ao fundar a TNS, Gilberto sabia o que queria manter da experiência em grandes empresas — e o que queria evitar. “Não é porque determinadas rotinas e processos funcionam bem, e elas são fundamentais em grandes corporações, que empresas incipientes precisam ter estrutura e processos definidos.”

Para ele, startups exigem velocidade, autonomia e capacidade de errar e corrigir rápido. “O foco inicial de uma empresa é buscar o break-even, refinar produto e definir segmentos de atuação”

E o que continua movendo Gilberto?

Com 60 anos, Gilberto ainda busca ativamente aprender, assumir novos desafios e atuar em setores diferentes daqueles onde se consolidou. Um exemplo disso é sua nova posição de conselheiro de uma varejista do ramo da moda “Estou me desafiando e buscando entender e aprender rapidamente para contribuir o máximo dentro do escopo da empresa, não só naquilo que hoje faz parte da minha zona de conforto! Realmente o que me estimula é isso.”

Seja como conselheiro, sócio, mentor ou advisor, sua curiosidade continua sendo sua bússola.

“Life long learning não é um clichê. Eu acho absolutamente importante. E quem tem esse modelo mental de crescimento e desenvolvimento são as pessoas que atacam dentro da organização e vão alçar posições de liderança.”

“As coisas têm que ser construídas. Ser intencionais.”

Gilberto Heinzelmann não ficou esperando que alguém planejasse sua jornada. Ele foi o arquiteto da própria carreira — com consistência, disciplina e coragem para mudar quando necessário.

“As maiores evoluções que eu tive na minha carreira sempre me desafiaram para além da minha área de conforto.”

Sua história é um lembrete de que sucesso não se improvisa. Ele se constrói, todos os dias, com intenção.

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Fundo Catarina


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