Entrevistas

ENTREVISTAS FUNDO CATARINA #3: BRUNNO BAGNARIOLLI

Por Fundo Catarina - 01.12.2025

Brunno Bagnariolli relembra sua trajetória da Engenharia Química na UFSC à liderança da JiveMauá, compartilhando lições de carreira, disciplina e construção de oportunidades no mercado financeiro.

A terceira entrevista da série do Fundo Catarina apresenta Brunno Bagnariolli, um nome de destaque no mercado financeiro brasileiro.

Bagnariolli se formou em Engenharia Química na UFSC, é Sócio e Chief Investment Officer da JiveMauá, uma das principais gestoras ativos alternativos do Brasil com mais de 18 anos de atuação e mais de R$21 bilhões de ativos sob gestão.

Nesta conversa, Brunno compartilha sua trajetória, desde os tempos de estudante na UFSC – onde aliou sua paixão por exatas, química orgânica e a vontade de se mudar para um lugar novo – até se tornar uma referência em Fundos Imobiliários no Brasil.

Brunno fundou a Atlética do curso de Engenharia Química, participou de laboratórios e até organizou o maior congresso de Engenharia Química do Brasil. Ele enfatiza a importância de se envolver em diversas atividades e projetos, uma filosofia que moldou sua carreira profissional.

Abordamos também a transição de Brunno para o mercado financeiro, destacando o papel da união de proatividade com o acaso em sua carreira. Ele compartilha insights valiosos sobre a gestão de negócios e pessoas, bem como conselhos fundamentais para quem aspira a uma carreira de sucesso no mercado financeiro.

Engenharia Química e a UFSC

“Prestei vestibular em 2005 e naquela época a Engenharia Química era um curso em alta, devido ao petróleo, recentes descobertas do Pré-sal e à Petrobras. Como eu queria algo em exatas e gostava de química, principalmente química orgânica, decidi unir o útil ao agradável.”

“A escolha da universidade também foi fácil. Eu queria sair de São Paulo e a UFSC estava entre as melhores do país. Para mim, construir uma vida independente em um novo ambiente, fora da casa dos pais, foi crucial. Acredito que, em alguns aspectos, isso é mais importante do que a própria faculdade. A UFSC proporciona um ambiente ideal, já que muitos alunos estão na mesma situação. Ao chegar lá, você se depara com a necessidade de construir todas as relações do zero, longe de casa. A principal dica que darei ao meu filho é: faça faculdade longe, vá viver e aprender sozinho. Teste e experimente, conheça e construa. Isso será sua melhor preparação para o mercado de trabalho.”

Na faculdade aprendi a lidar com vários desafios ao mesmo tempo

“Eu fundei a Atlética do EQA – na época havia poucas atléticas, diferente de hoje que o movimento cresceu bastante. Isso me tomou muito tempo. Não foi uma atividade academicamente brilhante, mas foi uma experiência de empreendedorismo: aprovar a atlética, estruturar, captar recurso, encontrar pessoas, organizar tudo. Meu tino para esportes é zero ou negativo, mas eu tinha capacidade de organização. A partir dessa experiência da Atlética, parti para organização de eventos, inclusive o Congresso Nacional de Engenharia Química.”

“Na minha trajetória técnica, tive a oportunidade de me engajar em duas linhas de pesquisa. A primeira foi focada em Dinâmica dos Fluidos Computacional (CFD) – um campo que combina física e matemática para simular o comportamento de fluidos. Nesse projeto, o objetivo era criar uma solução para lesões medulares, desenvolvendo um método para contornar a lesão e permitir que as sinapses continuassem funcionando. Na época, o trabalho era de grande importância e o laboratório contava com um dos três maiores financiamentos do CAPES. Posteriormente, meu foco se voltou para a engenharia genômica. Meu trabalho consistiu em estudar manipulações genéticas em bactérias. Um professor tentou me convencer a seguir a carreira acadêmica, mas confesso que a ideia não me atraía.”

“O principal aprendizado de tudo isso não encaixa no que seria considerado uma resposta nobre, mas é o que eu acho mais importante: aprendi a trabalhar com vários temas complexos ao mesmo tempo, lidando com várias barreiras. O profissional que sou hoje é função disso – sou uma referência em Fundos Imobiliários no Brasil hoje, mas não foi por isso que cheguei até aqui. Foi encontrando oportunidades e trabalhando em diversos temas ao mesmo tempo.”

“Para quem quer seguir a carreira do mercado financeiro, acredito que esse conselho é válido. É uma área menos técnica do que uma engenharia – o modelo de Excel que eu faço e que você faz é aritmética básica, baseado, é claro, em uma lógica de mercado. A tecnicidade do mercado financeiro é saber o que o modelo está dizendo e todas as implicações, com seus vários tentáculos. Então retornamos ao ponto de se envolver em diversas frentes, algo que a UFSC proporciona. Não é uma faculdade que deixa você bitolado em uma linha só. Outras faculdades te permitem viver menos a faculdade – por exemplo, fundar uma atlética, trazer um evento grande para Floripa, etc.”

“Infelizmente essas experiências iniciais que valem muito nem sempre são valorizadas por empresas na hora de contratar um estagiário. Eu consegui um estágio na Tupy na época porque o processo seletivo consistia em uma prova de lógica e uma resolução de case. Resolver um case é pensar em diversos problemas ao mesmo tempo, então eu fui bem.”

Breaking into Faria Lima não é fácil

“Meu primeiro contato com o ecossistema em que estou hoje foi na palestra de recrutamento da Tupy, feita por executivos seniores que vinham do BCG e da McKinsey. Eu sou um generalista e quando vi como funcionava todo esse ecossistema de mercado financeiro e das consultorias estratégicas, focado em grandes movimentações de recursos, me interessei e fui atrás, iniciando um estágio na Tupy. Daí em diante foi uma série de acasos que me levaram ao Mercado Financeiro; eu acho que acasos vão construir a carreira de todo mundo.”

“Esses acasos só deram certo para mim porque eu fazia muita coisa ao mesmo tempo, dando oportunidade para o acaso funcionar. Eu cresci dentro da Tupy até a área de Relação com Investidores (RI); essa é uma posição muito privilegiada, porque você está em contato com os fundos de investimento. Então eu comecei a me coçar. Mandei currículo, perguntei sobre vagas e iniciei as provas do Chartered Financial Analyst (CFA). Afinal, eu precisava de uma credencial maior, já que naquela época nem eu me contrataria.”

“Estar em São Paulo, para o mercado financeiro, é completamente diferente de estar em Santa Catarina. Não é a mesma coisa trabalhar em um Family Office em SC e trabalhar na Faria Lima em SP. Porém, é difícil break into Faria Lima. Então você precisa tentar se destacar de alguma forma. O CFA foi o meu meio, uma forma de mostrar que mesmo longe do epicentro eu enxergava o que era necessário. Logo depois que passei no Level 1 do CFA, a Mauá piscou para mim e eu pisquei para eles.”

“Hoje para quem quer vir para São Paulo é importante ter mais do que um pedigree. Quando eu busco um profissional de fora, eu procuro aqueles que não têm uma rede de segurança: estão brincando de trapézio sem uma rede embaixo. Vêm para São Paulo ganhando pouco, aquilo que ganham mal serve para pagar o apartamento e por isso mesmo vão se esforçar muito, porque precisam do bônus, porque não têm uma outra opção. É o “PhD – poor, hungry and deep desire to get rich”.”

Com o tempo vem menos carga horária e mais responsabilidade

“Depois de mais 10 anos de mercado, eu uso meu tempo de forma diferente. Não é mais aquela corrida constante na esteira, mas é pesado. Depois de um tempo você para de fazer as análises para a tomada de decisão e começa a tomar as decisões com base nas análises feitas pelos outros. O Excel e o Powerpoint vão ficando cada vez mais longe. Você se e sua nova ferramenta é agir baseado numa mistura de instinto e experiência com um conjunto de informações que pessoas que você confia produziu.”

“Hoje se eu sumir por uma semana não vai mudar nada na empresa no curto prazo. Tudo vai continuar rodando. As decisões e atividades que faço são relevantes no médio e longo prazo. Até por isso, hoje eu não tenho mais uma lista de coisas para fazer: report x, relatório y. Não existe isso; existe descobrir o que precisa ser feito que vai fazer a diferença mais para frente. Como eu cobro o camarada que não pagou uma dívida de 100 milhões de reais? Como eu vou lidar com a concorrência nessa frente? São decisões de grande impacto em poucos momentos.”

“Eu vejo meu trabalho hoje em cinco principais frentes: (1) originação de negócios – sócios precisam originar negócios a todo momento, independente do setor; (2) client facing – você é face do negócio para seu cliente, criando relacionamento com clientes e aparecendo na mídia (3) market facing – estar a par do que está acontecendo no mercado e como ele está se desenvolvendo (4) gestão de pessoas – um ensinamento do Luiz Fernando Figueiredo é de que as pessoas precisam de colo, você precisa estar lá para elas e ouvi-las (5) gestão da estrutura – como montar as áreas do negócio, onde inseri-las, quais os incentivos, entre outros.”

Para quem está começando a carreira agora, 5 conselhos

1) Seja generalista sem perder o core técnico: se você for vender turbina, saiba em quantas RPMs a turbina opera, mas não é necessário saber qual é o número de Reynolds do fluxo de ar que sai da turbina.

2) Saiba qual é o seu papel em cada momento. No começo, meu papel era prover informações e ficar calado em reuniões. Mais para frente, passou a ser meu papel conduzir as reuniões e receber as informações prontas.

3) Precise de pouco briefing: aprenda rápido o que as pessoas precisam, faça, cheque se está certo e entregue. Essa é uma característica do hustler, da pessoa esforçada que vai dar certo no mercado. Ninguém espera que você contribua tecnicamente, você acabou de chegar. Eu tenho experiência, você tem tempo. Transforme seu tempo em instrumentos nos quais eu possa alavancar minha experiência.

4) Tenha uma alta média de gols por jogo, mas os gols em finais são mais importantes – participe de grandes movimentos. Algumas percepções de mercado que eu tive, alguns poucos grandes “trades”, em momentos chave, me alavancaram e me colocaram onde eu estou.

5) Faça o máximo de estágios que puder. Não é fácil, pois engenharia é em tempo integral, mas dê um jeito. Faça estágio de férias, estágios online, grupos de resolução de case, o que der.

Por

Fundo Catarina


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